Índice do Tratado
Pica e Pagofagia
Um dos sinais mais curiosos e específicos da deficiência de ferro é a Pica (apetite por substâncias não nutritivas). A forma mais comum é a Pagofagia (desejo compulsivo de mastigar gelo). Estudos sugerem que mastigar gelo pode aumentar o fluxo sanguíneo cerebral em anêmicos, melhorando transitoriamente o estado de alerta, embora o mecanismo exato permaneça um mistério neurobiológico.
1. Introdução: A Fome Oculta Global
A deficiência de ferro é a carência nutricional mais prevalente no mundo, afetando cerca de 30% da população global, segundo a OMS. Embora seja frequentemente associada a países em desenvolvimento, ela permanece uma causa subdiagnosticada de fadiga crônica, queda de rendimento intelectual e intolerância ao exercício em países desenvolvidos.
A anemia ferropriva não é uma doença em si, mas um sinal de algo subjacente (sangramento ou má absorção). Tratar a anemia sem investigar a causa é considerado erro médico, pois pode mascarar condições graves como câncer colorretal ou doença celíaca.
2. Fisiopatologia: Sem Ferro, Sem Energia
O ferro é um mineral essencial, mas tóxico se livre no organismo. Por isso, ele é rigorosamente controlado por proteínas transportadoras (Transferrina) e armazenadoras (Ferritina).
Funções Vitais do Ferro
- Transporte de Oxigênio: Componente central do grupo Heme na Hemoglobina (sangue) e Mioglobina (músculo). Sem ferro, o transporte de O2 falha.
- Respiração Celular: Essencial para os citocromos na cadeia transportadora de elétrons mitocondrial. A falta de ferro reduz a produção de ATP (energia) mesmo antes de surgir a anemia.
- Síntese de DNA e Neurotransmissores: Cofator para enzimas que sintetizam dopamina e mielina.
3. Sinais e Sintomas: O Corpo pede Socorro
Os sintomas desenvolvem-se lentamente, permitindo que o corpo se adapte à hipóxia. Quando o paciente procura ajuda, a depleção já é severa.
| Sinal/Sintoma | Mecanismo Fisiopatológico |
|---|---|
| Fadiga Extrema | Hipóxia tecidual e disfunção mitocondrial (menos ATP). |
| Síndrome das Pernas Inquietas | Disfunção dopaminérgica no SNC dependente de ferro. Afeta até 25% dos anêmicos. |
| Coiloníquia | Unhas em forma de colher (côncavas), finas e quebradiças. Sinal de deficiência crônica severa. |
| Glossite Atrófica | Língua lisa, vermelha e dolorosa devido à perda das papilas (atrofia epitelial). |
| Queda de Cabelo | O folículo piloso é altamente sensível à falta de ferritina, entrando precocemente na fase telógena (queda). |
4. Etiologia: Onde está o Ferro?
O corpo humano não possui mecanismo fisiológico de excreção ativa de ferro. Portanto, a deficiência ocorre por apenas três vias:
- Aumento da Demanda: Gravidez (feto consome ferro), infância/adolescência (crescimento rápido).
- Diminuição da Absorção: Gastrite atrófica (falta de ácido), uso crônico de inibidores de bomba de prótons (Omeprazol), Doença Celíaca, cirurgia bariátrica.
- Perda Sanguínea (Mais Comum):
- Mulheres: Menstruação excessiva (menorragia).
- Homens e Mulheres Pós-Menopausa: Sangramento gastrointestinal (úlcera, pólipo, câncer, angiodisplasia) é a causa obrigatória a ser investigada.
5. Diagnóstico Diferencial Laboratorial
O hemograma mostra anemia Microcítica (VCM baixo - hemácias pequenas) e Hipocrômica (HCM baixo - hemácias pálidas). O RDW (índice de anisocitose) costuma estar elevado, indicando variação no tamanho das células.
O diagnóstico diferencial principal é com a Talassemia Menor (genética) e a Anemia de Doença Crônica (inflamação). O Perfil de Ferro esclarece:
| Parâmetro | Anemia Ferropriva | Anemia de Doença Crônica | Talassemia Menor |
|---|---|---|---|
| Ferritina | Baixa (< 30 ng/mL) | Normal ou Alta (Reagente de fase aguda) | Normal |
| Ferro Sérico | Baixo | Baixo (Sequestrado) | Normal |
| TIBC (Capacidade de Ligação) | Alta (Fome de ferro) | Baixa | Normal |
| Saturação de Transferrina | Baixa (< 20%) | Baixa ou Normal | Normal |
6. O Dilema da Ferritina
A ferritina é o melhor marcador de estoques de ferro, mas também é uma proteína de fase aguda. Em estados inflamatórios (infecção, obesidade, artrite), a ferritina sobe falsamente, mascarando uma deficiência de ferro real.
Nesses casos, a Saturação de Transferrina e o Receptor Solúvel de Transferrina são marcadores mais confiáveis. Uma ferritina < 30 ng/mL é diagnóstica de ferropenia absoluta, mas em pacientes inflamados (ex: insuficiência cardíaca), o corte sobe para < 100 ng/mL.
7. Tratamento: A Arte da Reposição
O objetivo é normalizar a hemoglobina e, crucialmente, repor os estoques (ferritina), o que leva meses.
Reposição Oral
O Sulfato Ferroso é o clássico, mas causa muitos efeitos gastrointestinais (dor, constipação, náusea). Novas formulações como Ferro Polimaltosado ou Bisglicinato são melhor toleradas e absorvidas, permitindo maior adesão. A recomendação atual é o uso em dias alternados (ex: seg, qua, sex) para diminuir a Hepcidina (hormônio que bloqueia a absorção de ferro) e melhorar a tolerância.
Reposição Intravenosa (IV)
Indicada para quem não tolera oral, tem má absorção (bariátrica, doença inflamatória intestinal) ou precisa de reposição rápida (insuficiência cardíaca, pré-operatório). Formulações modernas como Carboximaltose Férrica são seguras e permitem infusão de altas doses em 15 minutos.
8. Dieta: Ferro Heme vs Não-Heme
A dieta previne, mas raramente cura uma anemia instalada. Existem dois tipos de ferro:
- Ferro Heme: Presente em carnes vermelhas, fígado, frango e peixe. Absorção alta (20-30%) e direta, não influenciada por outros alimentos.
- Ferro Não-Heme: Presente em vegetais (feijão, lentilha, espinafre). Absorção baixa (2-5%) e dependente de cofatores.
Dica de Ouro: Vitamina C (laranja, limão) na mesma refeição aumenta a absorção do ferro não-heme em até 3x. Cálcio (leite, queijo), taninos (chá, café) e fitatos inibem a absorção e devem ser consumidos longe das refeições principais.
9. Conclusão
A Anemia Ferropriva é um sinal de alerta do corpo que não deve ser ignorado ou tratado empiricamente sem investigação. A restauração dos níveis de ferro não apenas corrige a anemia, mas devolve a vitalidade, a capacidade cognitiva e a qualidade de vida. O diagnóstico preciso da causa base é o passo mais importante do tratamento.