Índice do Tratado
Mecânica do Refluxo
A DRGE não é causada apenas pelo excesso de ácido, mas pela falha mecânica da barreira anti-refluxo. O Esfíncter Esofágico Inferior (EEI), uma válvula muscular na transição esôfago-gástrica, relaxa inadequadamente, permitindo que o conteúdo gástrico (ácido, pepsina e bile) retorne e lesione a mucosa esofágica.
1. Introdução: DRGE, Uma Epidemia Moderna
A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é a afecção digestiva mais prevalente no mundo ocidental, afetando cerca de 10-20% da população adulta. Caracterizada por sintomas crônicos como pirose (azia) e regurgitação, a DRGE representa um impacto significativo na qualidade de vida, comparável a doenças como angina e insuficiência cardíaca leve.
O aumento exponencial da obesidade e a mudança nos padrões alimentares têm alimentado essa epidemia. Se não tratada, a exposição crônica ao ácido pode levar a complicações severas, incluindo estenose esofágica, Esôfago de Barrett e Adenocarcinoma de Esôfago, um dos cânceres mais letais e de crescimento mais rápido na atualidade.
2. Fisiopatologia: Quando a Barreira Falha
Em um indivíduo saudável, o EEI mantém uma zona de alta pressão (15-30 mmHg) que impede o refluxo. Na DRGE, múltiplos mecanismos comprometem essa barreira:
- Relaxamentos Transitórios do EEI (RTEEI): O principal mecanismo. Ocorrem relaxamentos espontâneos não relacionados à deglutição, frequentemente desencadeados pela distensão gástrica (refeições volumosas).
- Hipotonia do EEI: Pressão basal cronicamente baixa, comum em pacientes com DRGE severa.
- Hérnia de Hiato: Deslocamento da junção esofagogástrica para o tórax, anulando a ajuda do diafragma na contenção do refluxo.
- Esvaziamento Gástrico Retardado: O alimento permanece mais tempo no estômago, aumentando a pressão intragástrica e a probabilidade de refluxo.
3. Diagnóstico de Precisão
O diagnóstico é, primariamente, clínico (baseado nos sintomas típicos). No entanto, em casos de sinais de alarme (perda de peso, disfagia, anemia) ou refratariedade ao tratamento, exames são mandatórios:
- Endoscopia Digestiva Alta (EDA): Visualiza a mucosa, classifica a esofagite (Classificação de Los Angeles) e permite biópsias para descartar Barrett ou malignidade.
- pHmetria de 24h (ou 96h com cápsula sem fio): O padrão-ouro fisiológico. Mede a exposição ácida real no esôfago distal e correlaciona os sintomas com os episódios de refluxo.
- Manometria Esofágica: Avalia a motilidade e a pressão do EEI, essencial pré-cirurgia.
4. Protocolo Dietético: O Pilar do Tratamento
A modificação dietética visa reduzir a acidez gástrica, aumentar a pressão do EEI e facilitar o essvaziamento gástrico.
4.1 Alimentos "Gatilho" (Evitar)
| Categoria | Alimento | Mecanismo Patológico |
|---|---|---|
| Relaxantes do EEI | Cafeína, Chocolate (metilxantinas), Hortelã/Menta, Álcool. | Reduzem a pressão do esfíncter, facilitando o refluxo. |
| Irritantes Diretos | Frutas cítricas, Tomate e derivados, Pimentas (capsaicina). | Causam dor direta na mucosa esofágica já inflamada. |
| Retardadores Gástricos | Gorduras (frituras, queijos amarelos, carnes gordas). | A gordura libera colecistoquinina (CCK), que relaxa o EEI e atrasa o esvaziamento gástrico. |
4.2 Estratégia de Fracionamento
Refeições volumosas distendem o fundo gástrico, disparando os RTEEI. O protocolo ideal envolve:
- Comer pequenas porções a cada 3-4 horas.
- Mastigar exaustivamente para facilitar a digestão enzimática.
- Evitar líquidos junto com as refeições (diluição enzimática e aumento de volume).
5. Intervenções Comportamentais e Posturais
A gravidade é uma aliada poderosa. Medidas simples de estilo de vida podem reduzir a exposição ácida noturna em até 50%.
- Elevação da Cabeceira: Elevar a cabeceira da cama em 15-20 cm (usando blocos ou calços, não apenas travesseiros) utiliza a gravidade para manter o ácido no estômago durante o sono.
- Jejum Pré-Sono: Aguardar no mínimo 3 horas após a última refeição antes de deitar. Isso garante que o estômago esteja vazio ao assumir a posição supina.
- Decúbito Lateral Esquerdo: Estudos mostram que dormir sobre o lado esquerdo reduz significativamente os episódios de refluxo comparado ao lado direito ou decúbito dorsal, devido à anatomia da curvatura gástrica.
- Perda de Peso: A obesidade central aumenta a pressão intra-abdominal, forçando o conteúdo gástrico para cima. A perda de apenas 10% do peso pode resolver os sintomas em muitos pacientes.
6. Complicações: O Espectro de Barrett
A cicatrização contínua da inflamação esofágica pode levar à metaplasia intestinal, conhecida como Esôfago de Barrett. Neste estado, o epitélio escamoso normal do esôfago é substituído por epitélio colunar (semelhante ao intestino) para resistir ao ácido.
7. Abordagem Farmacológica e Cirúrgica
Quando as medidas comportamentais são insuficientes, a farmacoterapia entra em cena.
- Inibidores de Bomba de Prótons (IBPs): Omeprazol, Pantoprazol, Esomeprazol. São a base do tratamento, inibindo potentemente a secreção ácida. Devem ser tomados em jejum, 30-60 min antes da primeira refeição.
- Bloqueadores H2: Famotidina. Úteis para controle de sintomas noturnos ou leves.
- Alginatos: Formam uma "balsa" de espuma física sobre o conteúdo gástrico, impedindo o refluxo pós-prandial imediato.
A cirurgia anti-refluxo (Fundoplicatura de Nissen) é considerada para pacientes jovens dependentes de IBP, com hérnia de hiato volumosa ou com regurgitação persistente apesar da medicação.
8. Conclusão
A DRGE é uma condição crônica que exige gerenciamento vitalício. Embora os medicamentos sejam eficazes para a cicatrização da esofagite, eles não corrigem a falha mecânica do esfíncter. O sucesso a longo prazo depende intrinsecamente da adesão do paciente aos protocolos dietéticos e comportamentais, transformando o estilo de vida na principal ferramenta terapêutica.