A "Via Aérea Única"

Rinite e asma são frequentemente chamadas de "doença da via aérea única". Aproximadamente 80% dos asmáticos têm rinite, e tratar a inflamação nasal é fundamental para controlar a asma. O nariz é o ar-condicionado do pulmão; se ele falha (obstrução), o ar chega frio, seco e sujo aos brônquios, desencadeando broncoespasmo.

1. O Nariz como Guardião

O nariz não é apenas um canal passivo para o ar. É um órgão complexo responsável por filtrar, aquecer e umidificar cerca de 10.000 litros de ar que respiramos diariamente. Quando esse sistema de defesa falha ou reage exageradamente, surgem as duas condições nasais mais comuns e frequentemente confundidas: rinite e sinusite.

Embora compartilhem sintomas (nariz entupido), elas são entidades patológicas distintas. A rinite é uma inflamação da mucosa que reveste a cavidade nasal, enquanto a sinusite (mais corretamente chamada de rinossinusite) envolve a inflamação dos seios paranasais, as cavidades aeradas dentro dos ossos da face.

2. Rinite Alérgica: A Tempestade Inflamatória

A rinite alérgica é uma reação de hipersensibilidade do tipo I, mediada por anticorpos IgE. Ocorre quando o sistema imune identifica erroneamente uma substância inofensiva (alérgeno, como pólen ou ácaro) como uma ameaça.

Mecanismo Imunológico

  1. Sensibilização: Primeiro contato com o alérgeno produz IgE específica, que se fixa na superfície dos mastócitos.
  2. Reexposição: O alérgeno liga-se à IgE, causando a "degranulação" dos mastócitos.
  3. Liberação de Mediadores: Uma explosão de Histamina, leucotrienos e prostaglandinas é liberada em segundos.

A histamina causa vasodilatação (obstrução), aumento da permeabilidade vascular (coriza) e estimulação de terminações nervosas (coceira e espirros). É uma reação imediata e explosiva.

3. Sinusite: O Bloqueio da Drenagem

Os seios da face produzem muco que drena para o nariz através de orifícios minúsculos chamados óstios. A rinossinusite ocorre quando esses óstios são bloqueados.

O bloqueio cria um ambiente fechado, úmido e sem oxigênio, ideal para a proliferação bacteriana. As causas do bloqueio incluem:

A sinusite pode ser Aguda (< 12 semanas, geralmente viral ou pós-viral) ou Crônica (> 12 semanas, processo inflamatório complexo, muitas vezes com pólipos).

4. Quadro Comparativo: Como Diferenciar?

A distinção clínica é essencial para o tratamento correto:

Sintoma Rinite Alérgica Sinusite (Bacteriana Aguda)
Prurido (Coceira) Intenso (nariz, olhos, céu da boca). Raro.
Espirros Em salvas (vários seguidos). Ocasional.
Secreção Aquosa, transparente (hialina). Espessa, amarela/esverdeada (purulenta).
Dor/Pressão Facial Sensação de peso, mas dor rara. Dor intensa, pulsátil, piora ao abaixar a cabeça.
Febre Não. Pode ocorrer (mas nem sempre).
Duração Persistente enquanto houver alérgeno. Geralmente > 10 dias ou "piora dupla" (melhora e piora).

5. Gatilhos Ambientais: O Inimigo Invisível

O controle ambiental é 50% do tratamento. Os principais vilões são:

6. Diagnóstico: Além da História Clínica

Para a Rinite, o diagnóstico é clínico, confirmado por testes cutâneos (Prick Test) ou dosagem de IgE específica no sangue (RAST) para identificar o alérgeno.

Para a Sinusite, o exame padrão-ouro não é o raio-X (que tem baixa sensibilidade), mas a Nasofibrolaringoscopia (câmera no nariz) para ver pus no meato médio, ou a Tomografia Computadorizada (TC) dos seios da face, essencial em casos crônicos ou pré-cirúrgicos.

7. Tratamento: A Arte da Lavagem Nasal

A lavagem nasal com soro fisiológico é a intervenção não farmacológica mais eficaz para ambas as condições. Ela:

Deve ser feita com alto volume (garrafinhas ou seringas de 20ml+) e baixa pressão, diariamente. É a "escovação de dentes" do nariz.

8. Medicamentos e Imunoterapia

O arsenal terapêutico difere:

Rinite Alérgica

Sinusite Bacteriana

9. Conclusão

Rinite e sinusite, embora afetem a mesma região anatômica, exigem abordagens distintas. A banalização do uso de descongestionantes tópicos (gotinhas) deve ser combatida, pois causam rinite medicamentosa rebote. A chave para a saúde respiratória superior reside na prevenção ambiental, na higiene nasal diária e no tratamento anti-inflamatório contínuo, não apenas no alívio sintomático das crises.

Referências Bibliográficas Selecionadas

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