Índice do Tratado
- 1. O Guardião Respiratório
- 2. Rinite Alérgica: A Tempestade de IgE
- 3. Sinusite: Quando a Drenagem Falha
- 4. Quadro Comparativo de Sintomas
- 5. Gatilhos Ambientais (Ácaros e Poluição)
- 6. Diagnóstico: Clínico vs Imagem
- 7. A Arte da Lavagem Nasal
- 8. Medicamentos e Imunoterapia
- 9. Conclusão
- Referências Bibliográficas
A "Via Aérea Única"
Rinite e asma são frequentemente chamadas de "doença da via aérea única". Aproximadamente 80% dos asmáticos têm rinite, e tratar a inflamação nasal é fundamental para controlar a asma. O nariz é o ar-condicionado do pulmão; se ele falha (obstrução), o ar chega frio, seco e sujo aos brônquios, desencadeando broncoespasmo.
1. O Nariz como Guardião
O nariz não é apenas um canal passivo para o ar. É um órgão complexo responsável por filtrar, aquecer e umidificar cerca de 10.000 litros de ar que respiramos diariamente. Quando esse sistema de defesa falha ou reage exageradamente, surgem as duas condições nasais mais comuns e frequentemente confundidas: rinite e sinusite.
Embora compartilhem sintomas (nariz entupido), elas são entidades patológicas distintas. A rinite é uma inflamação da mucosa que reveste a cavidade nasal, enquanto a sinusite (mais corretamente chamada de rinossinusite) envolve a inflamação dos seios paranasais, as cavidades aeradas dentro dos ossos da face.
2. Rinite Alérgica: A Tempestade Inflamatória
A rinite alérgica é uma reação de hipersensibilidade do tipo I, mediada por anticorpos IgE. Ocorre quando o sistema imune identifica erroneamente uma substância inofensiva (alérgeno, como pólen ou ácaro) como uma ameaça.
Mecanismo Imunológico
- Sensibilização: Primeiro contato com o alérgeno produz IgE específica, que se fixa na superfície dos mastócitos.
- Reexposição: O alérgeno liga-se à IgE, causando a "degranulação" dos mastócitos.
- Liberação de Mediadores: Uma explosão de Histamina, leucotrienos e prostaglandinas é liberada em segundos.
A histamina causa vasodilatação (obstrução), aumento da permeabilidade vascular (coriza) e estimulação de terminações nervosas (coceira e espirros). É uma reação imediata e explosiva.
3. Sinusite: O Bloqueio da Drenagem
Os seios da face produzem muco que drena para o nariz através de orifícios minúsculos chamados óstios. A rinossinusite ocorre quando esses óstios são bloqueados.
O bloqueio cria um ambiente fechado, úmido e sem oxigênio, ideal para a proliferação bacteriana. As causas do bloqueio incluem:
- Edema da mucosa (por gripe ou rinite não tratada).
- Anatomia (desvio de septo, concha bolhosa).
- Pólipos nasais.
A sinusite pode ser Aguda (< 12 semanas, geralmente viral ou pós-viral) ou Crônica (> 12 semanas, processo inflamatório complexo, muitas vezes com pólipos).
4. Quadro Comparativo: Como Diferenciar?
A distinção clínica é essencial para o tratamento correto:
| Sintoma | Rinite Alérgica | Sinusite (Bacteriana Aguda) |
|---|---|---|
| Prurido (Coceira) | Intenso (nariz, olhos, céu da boca). | Raro. |
| Espirros | Em salvas (vários seguidos). | Ocasional. |
| Secreção | Aquosa, transparente (hialina). | Espessa, amarela/esverdeada (purulenta). |
| Dor/Pressão Facial | Sensação de peso, mas dor rara. | Dor intensa, pulsátil, piora ao abaixar a cabeça. |
| Febre | Não. | Pode ocorrer (mas nem sempre). |
| Duração | Persistente enquanto houver alérgeno. | Geralmente > 10 dias ou "piora dupla" (melhora e piora). |
5. Gatilhos Ambientais: O Inimigo Invisível
O controle ambiental é 50% do tratamento. Os principais vilões são:
- Ácaros (Dermatophagoides): Vivem em poeira doméstica, colchões e travesseiros. Alimentam-se de pele humana descamada. Suas fezes são o alérgeno potente.
- Fungos (Mofo): Crescem em áreas úmidas (banheiros, infiltrações). Esporos aéreos são irritantes universais.
- Epitélio de Animais: A proteína alergênica não está no pelo, mas na saliva e na pele (caspa) de cães e gatos.
- Poluição e Mudança de Tempo: O choque térmico e partículas diesel (PM2.5) paralisam os cílios nasais, facilitando a infecção e a inflamação.
6. Diagnóstico: Além da História Clínica
Para a Rinite, o diagnóstico é clínico, confirmado por testes cutâneos (Prick Test) ou dosagem de IgE específica no sangue (RAST) para identificar o alérgeno.
Para a Sinusite, o exame padrão-ouro não é o raio-X (que tem baixa sensibilidade), mas a Nasofibrolaringoscopia (câmera no nariz) para ver pus no meato médio, ou a Tomografia Computadorizada (TC) dos seios da face, essencial em casos crônicos ou pré-cirúrgicos.
7. Tratamento: A Arte da Lavagem Nasal
A lavagem nasal com soro fisiológico é a intervenção não farmacológica mais eficaz para ambas as condições. Ela:
- Remove mecanicamente alérgenos, bactérias e mediadores inflamatórios.
- Fluidifica o muco, facilitando a expulsão.
- Melhora o funcionamento dos cílios nasais.
Deve ser feita com alto volume (garrafinhas ou seringas de 20ml+) e baixa pressão, diariamente. É a "escovação de dentes" do nariz.
8. Medicamentos e Imunoterapia
O arsenal terapêutico difere:
Rinite Alérgica
- Corticoides Nasais Tópicos: A base do tratamento. Reduzem a inflamação e a hiper-reatividade. Seguros para uso a longo prazo (baixa absorção sistêmica).
- Anti-histamínicos: Úteis para crises agudas (espirros/coceira), mas pouco eficazes para o nariz entupido.
- Imunoterapia (Vacinas): O único tratamento capaz de mudar a história natural da doença, ensinando o sistema imune a tolerar o alérgeno.
Sinusite Bacteriana
- Antibióticos: Apenas se houver evidência forte de infecção bacteriana (sintomas > 10 dias, febre alta, pus). Amoxicilina-Clavulanato é comum.
- Corticoides Sistêmicos: Podem ser usados por curto período para reduzir edema e abrir os óstios.
9. Conclusão
Rinite e sinusite, embora afetem a mesma região anatômica, exigem abordagens distintas. A banalização do uso de descongestionantes tópicos (gotinhas) deve ser combatida, pois causam rinite medicamentosa rebote. A chave para a saúde respiratória superior reside na prevenção ambiental, na higiene nasal diária e no tratamento anti-inflamatório contínuo, não apenas no alívio sintomático das crises.