Índice do Tratado
Não é só "Tendinite"
A Síndrome do Túnel do Carpo (STC) é frequentemente confundida com tendinite, mas sua origem é neuropática. É causada pela compressão mecânica do nervo mediano dentro de um canal ósseo estreito no punho. Diferente da dor muscular, a dor da STC é caracterizada por choque, formigamento e queimação, muitas vezes acordando o paciente à noite.
1. Introdução: A Epidemia Digital
A Síndrome do Túnel do Carpo é a neuropatia compressiva mais comum do membro superior, afetando cerca de 3-6% da população adulta. Com a transição global para o trabalho digital e o uso onipresente de smartphones, a incidência dessa patologia tem aumentado significativamente.
Classificada como uma LER/DORT (Lesão por Esforço Repetitivo / Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho), a STC representa uma das principais causas de afastamento laboral e perda de produtividade, gerando custos econômicos e sociais imensos.
2. Anatomia: Um Espaço Superlotado
O túnel do carpo é um canal rígido e estreito localizado na base da palma da mão. Suas fronteiras são:
- Assoalho e Paredes: Ossos do carpo (escafóide, semilunar, piramidal, etc.), que formam um arco côncavo.
- Teto: O Ligamento Carpal Transverso (Retináculo dos Flexores), uma banda fibrosa espessa e inelástica.
Dentro desse espaço de poucos centímetros quadrados, passam 9 tendões flexores dos dedos e o Nervo Mediano. Qualquer inchaço nos tendões ou acúmulo de líquido aumenta a pressão interna, e como o osso e o ligamento não se expandem, o nervo mediano acaba sendo o tecido mais "macio" e vulnerável a ser esmagado.
3. Fisiopatologia: Isquemia e Edema
A compressão crônica do nervo mediano desencadeia uma cascata de eventos patológicos:
- Estase Venosa: A pressão comprime as vênulas que drenam o nervo, causando edema (inchaço) intraneural.
- Isquemia: Com o aumento do edema, o suprimento arterial é comprometido, privando o nervo de oxigênio.
- Desmielinização: A isquemia crônica leva à perda da bainha de mielina (isolante elétrico), resultando em condução nervosa lenta e sintomas sensitivos (formigamento).
- Dano Axonal: Em estágios avançados, as próprias fibras nervosas morrem, causando atrofia muscular irreversível na base do polegar (eminência tenar).
4. Sintomas e Diagnóstico Clínico
O quadro clínico é clássico, mas muitas vezes ignorado no início:
- Parestesia (Formigamento): Afeta o polegar, indicador, dedo médio e metade do anelar. O dedo mínimo é tipicamente poupado (pois é inervado pelo nervo ulnar).
- Dor Noturna: O paciente acorda de madrugada com a mão "dormente" e precisa sacudi-la ("Sinal de Flick") para aliviar. Isso ocorre porque dormimos com os punhos flexionados, o que aumenta a pressão no túnel.
- Fraqueza (Paresia): Dificuldade em segurar objetos pequenos, abotoar camisas ou abrir potes. Objetos caem da mão inesperadamente.
O diagnóstico é confirmado por testes provocativos (Phalen, Tinel) e, fundamentalmente, pela Eletroneuromiografia, que mede a velocidade de condução do nervo.
5. Fatores de Risco Ocupacionais e Biológicos
Embora a ergonomia seja crucial, fatores biológicos tornam certos indivíduos mais suscetíveis:
| Categoria | Fatores de Risco |
|---|---|
| Ergonômicos | Movimentos repetitivos de flexão/extensão do punho, uso de ferramentas vibratórias, compressão direta da palma, desvio ulnar forçado. |
| Endócrinos | Diabetes (neuropatia), Hipotireoidismo (mixedema), Gravidez (retenção hídrica), Menopausa. |
| Anatômicos | Túnel do carpo constitucionalmente estreito (genético), fraturas prévias do punho, artrite reumatoide (sinovite). |
6. Guia Prático de Ergonomia
A prevenção no escritório foca em manter o punho em posição neutra (reto), minimizando a pressão intracarpal.
- Teclado e Mouse: Devem estar na altura do cotovelo ou levemente abaixo. O punho não deve ficar dobrado para cima (extensão) nem apoiado diretamente na quina da mesa.
- Mouse Vertical: Mantém o antebraço em posição neutra (aperto de mão), evitando a torção dos ossos do braço que comprime o túnel.
- Pausas: A cada 45-60 minutos, faça pausas de 5 minutos para alongar e relaxar a musculatura.
- Postura Global: A tensão no pescoço e ombros pode comprimir os nervos mais acima (plexo braquial), gerando uma "síndrome do duplo esmagamento". A coluna deve estar apoiada e os pés no chão.
7. Protocolo de Exercícios: Deslizamento Neural
Diferente do alongamento muscular estático, os exercícios de Deslizamento Neural (Nerve Gliding) visam mobilizar o nervo mediano através do túnel, prevenindo aderências e melhorando a circulação.
Exercício Básico de Deslizamento do Mediano:
- Punho Fechado: Comece com a mão fechada, polegar para fora.
- Dedos Estendidos: Abra a mão e estique os dedos para cima.
- Extensão do Punho: Dobre a mão para trás (dorsiflexão).
- Polegar Estendido: Estique o polegar para o lado.
- Supinação: Gire a palma da mão para cima (como se segurasse uma bandeja).
- Alongamento do Polegar: Com a outra mão, puxe suavemente o polegar para trás.
Realizar 5-10 repetições, suavemente, 3 vezes ao dia. Pare se houver dor ou formigamento intenso.
8. Tratamento: Conservador vs Cirúrgico
O tratamento depende da gravidade da lesão nervosa:
- Estágio Leve/Moderado: O uso de órteses noturnas (talas) é a intervenção mais eficaz, mantendo o punho neutro durante o sono. Injeções locais de corticoides podem reduzir a inflamação temporariamente.
- Estágio Grave (Atrofia/Perda Sensitiva): A cirurgia de liberação do túnel do carpo é indicada. O procedimento corta o Ligamento Carpal Transverso, aumentando o espaço disponível para o nervo. A recuperação costuma ser excelente se realizada antes de danos irreversíveis.
9. Conclusão
A Síndrome do Túnel do Carpo não é uma sentença inevitável da vida moderna. Com ajustes ergonômicos inteligentes, pausas estratégicas e exercícios de manutenção, é possível proteger a saúde das mãos. O reconhecimento precoce dos sintomas (formigamento noturno) é vital: tratar cedo evita a progressão para danos nervosos permanentes e perda de função.