Não é sobre Cistos

O nome "Síndrome do Ovário Policístico" é tecnicamente impreciso. Os "cistos" visualizados no ultrassom são, na verdade, folículos antrais (óvulos imaturos) que pararam de crescer devido ao desequilíbrio hormonal. A SOP não é uma doença ovariana isolada, mas uma desordem endócrina e metabólica complexa que afeta o corpo inteiro, da pele ao pâncreas.

1. Introdução: O Espectro da SOP

A Síndrome do Ovário Policístico (SOP) é a endocrinopatia mais comum em mulheres em idade reprodutiva, afetando entre 6% a 20% da população feminina global, dependendo dos critérios diagnósticos utilizados. Frequentemente subdiagnosticada, a SOP é a principal causa de infertilidade anovulatória no mundo.

Mais do que uma questão reprodutiva ou estética, a SOP representa um estado de inflamação crônica de baixo grau e disfunção metabólica. Mulheres com SOP têm riscos aumentados para diabetes tipo 2, doença cardiovascular, hipertensão e câncer de endométrio, exigindo uma abordagem médica que vá muito além da prescrição de anticoncepcionais.

2. Diagnóstico: Os Critérios de Rotterdam

O consenso internacional atual para o diagnóstico da SOP são os Critérios de Rotterdam (2003). Para fechar o diagnóstico, a paciente deve apresentar pelo menos dois dos três critérios abaixo, após a exclusão de outras etiologias (como hiperplasia adrenal congênita, distúrbios da tireoide ou hiperprolactinemia):

  1. Disfunção Ovulatória: Oligoovulação (ciclos longos, >35 dias) ou Anovulação (ausência de menstruação/ovulação).
  2. Hiperandrogenismo:
    • Clínico: Hirsutismo (excesso de pelos em áreas masculinas - Escala de Ferriman-Gallwey), acne severa, alopecia androgenética.
    • Bioquímico: Níveis elevados de testosterona total/livre ou S-DHEA no sangue.
  3. Morfologia Ovariana Policística (ao Ultrassom): Presença de 12 ou mais folículos (2-9 mm) em pelo menos um ovário e/ou volume ovariano aumentado (>10 cm³).

3. Fisiopatologia: O Ciclo Vicioso da Insulina

Embora a causa exata seja multifatorial (genética + ambiente), a Resistência à Insulina (RI) é considerada o motor central da síndrome em cerca de 70-80% das pacientes (mesmo nas magras).

O Mecanismo Molecular

A RI leva a uma hiperinsulinemia compensatória (excesso de insulina no sangue). A insulina elevada atua diretamente em dois alvos:

4. Manifestações Clínicas e Fenótipos

A apresentação da SOP é heterogênea. Nem toda paciente tem acne, nem toda paciente é obesa. Reconhecem-se quatro fenótipos principais (A, B, C e D), variando em severidade:

Sinal/Sintoma Descrição e Impacto
Irregularidade Menstrual Ciclos imprevisíveis, amenorreia (ficar meses sem menstruar) ou sangramento uterino disfuncional. Reflete a falta de ovulação.
Hirsutismo Crescimento de pelos grossos e pigmentados no rosto (queixo, buço), peito, abdômen e dorso. Gera grande sofrimento psicossocial.
Acne Resistente Acne que persiste na idade adulta, localizada frequentemente na linha da mandíbula e pescoço, refratária a tratamentos tópicos comuns.
Acantose Nigricans Manchas escuras e aveludadas nas dobras da pele (pescoço, axilas, virilha). É um sinal dermatológico direto de resistência à insulina severa.

5. Riscos Metabólicos a Longo Prazo

A SOP não termina na menopausa; seus riscos metabólicos persistem. Pacientes com SOP têm:

6. Manejo Nutricional: A Primeira Linha de Tratamento

A mudança no estilo de vida é a terapia de primeira linha em todos os consensos internacionais. O objetivo principal é melhorar a sensibilidade à insulina.

Estratégias Dietéticas

7. Farmacoterapia: Além da Pílula

O tratamento deve ser individualizado conforme a queixa principal da paciente (irregularidade, sintomas androgênicos ou desejo de engravidar).

8. Manejo da Infertilidade

Para mulheres que desejam engravidar, o foco é induzir a ovulação. A perda de peso de apenas 5-10% pode restaurar a ovulação espontânea em muitas pacientes.

Medicamentos indutores como o Letrozol (inibidor da aromatase) são hoje a primeira escolha farmacológica, superando o Clomifeno em eficácia e segurança para pacientes com SOP.

9. Conclusão

A Síndrome do Ovário Policístico é uma condição crônica que acompanha a mulher por toda a vida. O diagnóstico precoce e a intervenção focada na saúde metabólica são cruciais não apenas para a fertilidade, mas para a prevenção de doenças cardiovasculares e diabetes no futuro. A abordagem deve ser sempre multidisciplinar, integrando ginecologista, endocrinologista, nutricionista e dermatologista.

Referências Bibliográficas Selecionadas

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