Índice do Tratado
- 1. O Espectro da SOP
- 2. Diagnóstico: Critérios de Rotterdam
- 3. Fisiopatologia: Insulina e Andrógenos
- 4. Manifestações Clínicas e Fenótipos
- 5. Riscos Metabólicos a Longo Prazo
- 6. Manejo Nutricional e Dieta SOP
- 7. Farmacoterapia: Além da Pílula
- 8. Manejo da Infertilidade
- 9. Conclusão
- Referências Bibliográficas
Não é sobre Cistos
O nome "Síndrome do Ovário Policístico" é tecnicamente impreciso. Os "cistos" visualizados no ultrassom são, na verdade, folículos antrais (óvulos imaturos) que pararam de crescer devido ao desequilíbrio hormonal. A SOP não é uma doença ovariana isolada, mas uma desordem endócrina e metabólica complexa que afeta o corpo inteiro, da pele ao pâncreas.
1. Introdução: O Espectro da SOP
A Síndrome do Ovário Policístico (SOP) é a endocrinopatia mais comum em mulheres em idade reprodutiva, afetando entre 6% a 20% da população feminina global, dependendo dos critérios diagnósticos utilizados. Frequentemente subdiagnosticada, a SOP é a principal causa de infertilidade anovulatória no mundo.
Mais do que uma questão reprodutiva ou estética, a SOP representa um estado de inflamação crônica de baixo grau e disfunção metabólica. Mulheres com SOP têm riscos aumentados para diabetes tipo 2, doença cardiovascular, hipertensão e câncer de endométrio, exigindo uma abordagem médica que vá muito além da prescrição de anticoncepcionais.
2. Diagnóstico: Os Critérios de Rotterdam
O consenso internacional atual para o diagnóstico da SOP são os Critérios de Rotterdam (2003). Para fechar o diagnóstico, a paciente deve apresentar pelo menos dois dos três critérios abaixo, após a exclusão de outras etiologias (como hiperplasia adrenal congênita, distúrbios da tireoide ou hiperprolactinemia):
- Disfunção Ovulatória: Oligoovulação (ciclos longos, >35 dias) ou Anovulação (ausência de menstruação/ovulação).
- Hiperandrogenismo:
- Clínico: Hirsutismo (excesso de pelos em áreas masculinas - Escala de Ferriman-Gallwey), acne severa, alopecia androgenética.
- Bioquímico: Níveis elevados de testosterona total/livre ou S-DHEA no sangue.
- Morfologia Ovariana Policística (ao Ultrassom): Presença de 12 ou mais folículos (2-9 mm) em pelo menos um ovário e/ou volume ovariano aumentado (>10 cm³).
3. Fisiopatologia: O Ciclo Vicioso da Insulina
Embora a causa exata seja multifatorial (genética + ambiente), a Resistência à Insulina (RI) é considerada o motor central da síndrome em cerca de 70-80% das pacientes (mesmo nas magras).
O Mecanismo Molecular
A RI leva a uma hiperinsulinemia compensatória (excesso de insulina no sangue). A insulina elevada atua diretamente em dois alvos:
- Ovários (Células da Teca): A insulina estimula a produção excessiva de andrógenos (testosterona), que bloqueiam a maturação folicular, causando anovulação.
- Fígado: A insulina inibe a produção de SHBG (Globulina Carreadora de Hormônios Sexuais). Com menos SHBG, sobra mais testosterona livre circulante para causar acne e hirsutismo.
4. Manifestações Clínicas e Fenótipos
A apresentação da SOP é heterogênea. Nem toda paciente tem acne, nem toda paciente é obesa. Reconhecem-se quatro fenótipos principais (A, B, C e D), variando em severidade:
| Sinal/Sintoma | Descrição e Impacto |
|---|---|
| Irregularidade Menstrual | Ciclos imprevisíveis, amenorreia (ficar meses sem menstruar) ou sangramento uterino disfuncional. Reflete a falta de ovulação. |
| Hirsutismo | Crescimento de pelos grossos e pigmentados no rosto (queixo, buço), peito, abdômen e dorso. Gera grande sofrimento psicossocial. |
| Acne Resistente | Acne que persiste na idade adulta, localizada frequentemente na linha da mandíbula e pescoço, refratária a tratamentos tópicos comuns. |
| Acantose Nigricans | Manchas escuras e aveludadas nas dobras da pele (pescoço, axilas, virilha). É um sinal dermatológico direto de resistência à insulina severa. |
5. Riscos Metabólicos a Longo Prazo
A SOP não termina na menopausa; seus riscos metabólicos persistem. Pacientes com SOP têm:
- Risco 4x maior de desenvolver Diabetes Tipo 2.
- Prevalência elevada de Síndrome Metabólica (obesidade central, dislipidemia, hipertensão).
- Maior risco de Esteatose Hepática (gordura no fígado).
- Risco aumentado de Câncer de Endométrio devido à exposição prolongada ao estrogênio sem a contraposição da progesterona (que só é produzida na ovulação).
6. Manejo Nutricional: A Primeira Linha de Tratamento
A mudança no estilo de vida é a terapia de primeira linha em todos os consensos internacionais. O objetivo principal é melhorar a sensibilidade à insulina.
Estratégias Dietéticas
- Baixo Índice Glicêmico (IG): Priorizar carboidratos complexos e ricos em fibras para evitar picos de insulina.
- Dieta Anti-inflamatória: Rica em ômega-3, antioxidantes, vegetais e pobre em gorduras trans e alimentos ultraprocessados.
- Ciclo de Sementes (Seed Cycling): Estratégia complementar para suporte hormonal, embora com evidência científica mais limitada.
7. Farmacoterapia: Além da Pílula
O tratamento deve ser individualizado conforme a queixa principal da paciente (irregularidade, sintomas androgênicos ou desejo de engravidar).
- Sensibilizadores de Insulina: A Metformina é o padrão-ouro para tratar a resistência à insulina na SOP, melhorando a ovulação e reduzindo andrógenos.
- Inositol (Mio-inositol): Suplemento natural que melhora a sinalização da insulina e a qualidade oocitária, com menos efeitos colaterais que a metformina.
- Anticoncepcionais Orais Combinados (AOC): Regulam o ciclo e reduzem andrógenos, protegendo o endométrio. Não "curam" a SOP, apenas controlam sintomas.
- Anti-andrógenos: Espironolactona ou Ciproterona podem ser usadas para tratar hirsutismo severo e acne.
8. Manejo da Infertilidade
Para mulheres que desejam engravidar, o foco é induzir a ovulação. A perda de peso de apenas 5-10% pode restaurar a ovulação espontânea em muitas pacientes.
Medicamentos indutores como o Letrozol (inibidor da aromatase) são hoje a primeira escolha farmacológica, superando o Clomifeno em eficácia e segurança para pacientes com SOP.
9. Conclusão
A Síndrome do Ovário Policístico é uma condição crônica que acompanha a mulher por toda a vida. O diagnóstico precoce e a intervenção focada na saúde metabólica são cruciais não apenas para a fertilidade, mas para a prevenção de doenças cardiovasculares e diabetes no futuro. A abordagem deve ser sempre multidisciplinar, integrando ginecologista, endocrinologista, nutricionista e dermatologista.