Índice do Tratado
Não é "Menopausa Masculina"
O termo "Andropausa" é cientificamente incorreto. Ao contrário das mulheres, que cessam a função ovariana abruptamente, os homens experimentam um declínio gradual e variável da testosterona. O termo correto é DAEM (Distúrbio Androgênico do Envelhecimento Masculino) ou Hipogonadismo Tardio, caracterizado pela tríade: níveis baixos de testosterona + sintomas clínicos + ausência de outra patologia explicativa.
1. Introdução: O Mito da Virilidade Eterna
A testosterona é muito mais que um hormônio sexual; é um modulador metabólico sistêmico fundamental para a saúde óssea, muscular, cognitiva e cardiovascular. Com o aumento da expectativa de vida, o gerenciamento do envelhecimento masculino tornou-se um tema central na medicina moderna.
O DAEM afeta aproximadamente 20% dos homens acima de 60 anos e até 50% daqueles acima de 80 anos. No entanto, o diagnóstico é frequentemente negligenciado, com sintomas sendo erroneamente atribuídos apenas ao "ficar velho" ou tratados isoladamente (ex: antidepressivos para fadiga ou Viagra para disfunção erétil) sem investigar a causa raiz hormonal.
2. Fisiologia do Eixo Hipotálamo-Hipófise-Gonadal
A produção de testosterona é orquestrada por um sistema de feedback negativo preciso:
- Hipotálamo: Secreta GnRH (Hormônio Liberador de Gonadotrofinas) de forma pulsátil.
- Hipófise (Pituitária): Responde ao GnRH liberando LH (Hormônio Luteinizante) e FSH (Hormônio Folículo-Estimulante).
- Testículos: O LH estimula as Células de Leydig a sintetizarem testosterona a partir do colesterol. O FSH regula a espermatogênese nas Células de Sertoli.
No sangue, apenas cerca de 2% da testosterona circula livre (ativa). O restante está ligado à albumina (38%) ou fortemente ligado à SHBG (60%). O envelhecimento aumenta a SHBG, "sequestrando" ainda mais o hormônio e reduzindo a fração biodisponível.
3. O Declínio: A Regra de 1% ao Ano
A partir dos 30-40 anos, os níveis totais de testosterona caem fisiologicamente a uma taxa média de 1% a 2% ao ano. No entanto, fatores de estilo de vida podem acelerar dramaticamente esse processo.
A obesidade é o maior vilão. O tecido adiposo contém a enzima aromatase, que converte testosterona em estradiol (estrogênio). O estradiol elevado inibe o eixo no hipotálamo, reduzindo ainda mais a produção de testosterona, criando um ciclo vicioso de ganho de peso e hipogonadismo funcional.
4. Sintomas Clínicos: O Quadro do DAEM
Os sintomas são insidiosos e inespecíficos, geralmente agrupados em três domínios:
| Domínio | Sinais e Sintomas |
|---|---|
| Sexual | Perda de libido (desejo), disfunção erétil (especialmente perda de ereções matinais), dificuldade de atingir o orgasmo. |
| Físico/Somático | Fadiga crônica, perda de massa muscular (sarcopenia), aumento de gordura visceral, osteoporose, diminuição de pelos corporais. |
| Psicológico | Irritabilidade, depressão, distúrbios do sono, perda de memória e concentração ("brain fog"). |
5. Diagnóstico Laboratorial de Precisão
Não se diagnostica DAEM com apenas um exame. As diretrizes da Endocrine Society exigem:
- Duas dosagens matinais: A testosterona tem ritmo circadiano (pico entre 7h-9h). Coletas feitas à tarde podem ser falsamente baixas em homens jovens (embora esse ritmo se atenue em idosos).
- Testosterona Livre: A testosterona total pode estar normal, mas a livre baixa (devido a SHBG alta). O cálculo da Testosterona Livre Calculada (usando a fórmula de Vermeulen) é mais confiável que a dosagem direta por métodos analógicos.
- Exclusão de Causas Reversíveis: Hiperprolactinemia, hipotireoidismo, apneia do sono e uso de medicamentos (corticoides, opioides) devem ser descartados.
6. Impacto na Síndrome Metabólica e Ossos
A testosterona baixa é um marcador independente de risco de morte. Homens com hipogonadismo têm maior prevalência de:
- Resistência à Insulina e Diabetes Tipo 2: A testosterona melhora a captação de glicose muscular.
- Doença Cardiovascular: A deficiência associa-se a perfil lipídico aterogênico e disfunção endotelial.
- Osteoporose Masculina: A testosterona é convertida localmente em estrogênio no osso, essencial para a mineralização. Fraturas de quadril em homens têm mortalidade maior que em mulheres.
7. Terapia de Reposição de Testosterona (TRT)
A TRT não é para fins estéticos, mas para restauração fisiológica. As vias de administração incluem géis transdérmicos (mais fisiológicos, mimetizam o ritmo diário) e injetáveis de longa ou curta duração (undecilato, cipionato).
Benefícios Comprovados
- Melhora da composição corporal (menos gordura, mais músculo).
- Aumento da densidade mineral óssea.
- Melhora da libido e função sexual.
- Melhora do humor e sintomas depressivos leves.
Riscos e Monitoramento
- Eritrocitose (Sangue grosso): A testosterona estimula a eritropoiese. Hematócrito > 54% exige ajuste de dose ou flebotomia terapêutica.
- Infertilidade: A TRT exógena suprime o LH/FSH, paralisando a produção de espermatozoides. Homens que desejam filhos devem evitar a testosterona e optar por estimulantes como Clomifeno ou HCG.
8. O Mito da Próstata e Segurança
Durante décadas, acreditou-se que "testosterona causava câncer de próstata". Estudos modernos derrubaram esse mito. A teoria da saturação propõe que a próstata é sensível a andrógenos apenas até níveis muito baixos; acima disso, os receptores estão saturados e níveis adicionais não estimulam crescimento tumoral.
Entretanto, a TRT é contraindicada em pacientes com câncer de próstata ativo ou metastático não tratado.
9. Conclusão
O DAEM é uma condição clínica séria que impacta a longevidade e a qualidade de vida. A Terapia de Reposição de Testosterona, quando bem indicada e monitorada, é segura e eficaz. A decisão de tratar deve ser individualizada, pesando riscos e benefícios, e sempre acompanhada de mudanças no estilo de vida, como perda de peso e exercícios de força, que podem naturalmente elevar os níveis hormonais.